quarta-feira, 6 de maio de 2009

Melês-de-cuia

caiu no chão o que era doce
dentro da poça de alma
funda e suja
perdido então...
que se há de fazer?
como dar ação
ao caus instalado entre as possibilidades?
e a direção que o tempo toma
é sempre tão contraditória
o tempo é um engolidor dos dias
e um marcador de fatos
a inevitável evidência das meleiras
o batom no espelho
ou os respingos de pasta
a toalha esquecida
a data esquecida
a boca esquecida
a mágoa nunca dita
os cacos das meias palavras mal perdoadas
os pedaços do vidro do doce
cortam a pele que havia
entre o músculo e a película sana da rotina


a loucura silenciosamente tapa a retina
as asas crescem e se atiram da janela contra o vento
sujando o asfalto
poças de sangue amargo
saem das michas de olhos castanhos...


acabou-se!

5 comentários:

Luciano Fraga disse...

Atirar-se no abismo de tudo que é, eis o mistério e a feição, belo e maduro.Abraço.

anjobaldio disse...

Muito bom. Grande abraço.

Anne Caribé disse...

nossa, eu sabia que vc tinha blog?
=P bom agora eu realmente sei, vou futuca-lo
^^
saudade do nosso café...

Devir disse...

Não se passa por uma experiência poética sem deixar o chão que antes pisávamos sujo do próprio sangue. Este fluido vital e inapropriável, mas que jamais somente nos pertence. E o que mais fértil, este resumo do que somos, pode criar um belo poema?

Aquele abraço

Luciano Fraga disse...

Meu caro Devir e seus fantásticos vestígios, nós somos doadores universais, abraço.