quinta-feira, 31 de agosto de 2017

«Céu de Brigadeiro»

Com o tempo você se acostuma com a noite

e percebe a madureza como as pequenas 
epifanias que a vida fareja
Segue sem perseguir qualquer destino
e com a calmaria escolhe as velas
o barco
o vento
É só mesmo com a força da correnteza 
que se pode se dar conta 
que só do avesso se vê a etiqueta
que o que o corpo exibe é vazio
que há um grito que como fumaça escapa
que há um copo
que há um cheiro
que há uma mancha
que nem com saliva se lava


A estudante russa

O homem de Sete Cores (Anita Malfati. 1916)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Cena 1: CORAGEM

Parecia que era só atravessar a rua com a simplicidade ridícula dos passos...
Não havia a noção do barulho dos carros, 
do medo da morte 
e do adeus da calçada tão forte e concreta... cimentada sob seus pés que viviam sem chão...
Não havia tempo para grandes despedidas. 
Era preciso ir em frente. 
Era preciso morrer, ter medo e enlouquecer até o outro lado. 
Tudo estava disperso e concentrado em seu ato.



Starry Night. Van Gogh. 1889.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

...Quero fome.
Tenho fascinação pela vontade... 
pela voracidade... 
pela devoracidade alucinante.
Tenho estômagos entediados e magoados... cheios de gastrites e rachaduras... 
tenho muitas obesidades e sofro de indigestões crônicas...
...mas a magreza me assusta!
...e eu quero ter em mim os olhos grandes dos esfomeados que deliram pelos gostos imaginados
...os olhos desses pobres que adoecem com seus desejos infinitos deliciosamente impalpáveis. 

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(Aurora - Camille Claudel. 1895-1897)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Engoli tantos choros, gritos, versos e querências que perdi a fome e tomei a forma dos preços, botões e endereços que me exigiam.
Mantive a distância necessária dos sentimentos devoráveis pelas cascas e caixas que me mantêm... Compro diariamente manuais de felicidade com cálculos precisos.
Meus arquivos registram os erros que não devem ser esquecidos, todos os nãos e correspondências ignoradas, para não haver revivências.
Conto os passos e sigo as setas para evitar os ridículos.
Falo do que quero em frases curtas e só componho canções de saudades que nem sei se são minhas.
Vivendo singular, terceirizo sentimentos agudos e fortes do tipo que tomam muito tempo.
Saboreio o medo como um familiar aperitivo e vou esquecendo as chaves, os trapos e os infinitivos enquanto cresce o cansaço.


Resultado de imagem para grandes obras louvre

(Auto-retrato do artista sem barba - Vincent Van Gogh)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

                                                                               La Danaide. A. Rodin



Cedendo à preguiça das pálpebras
não tenho nada a cobrar do que me é alheio...
Tenho os bolsos cheios de tolerâncias ácidas.
Essa voz calma e esses olhos distraídos
denunciam a matéria do meu cansaço.
Sou réu confesso de ilusomícidios tardios - crime passional
e gentil em defesa dos dias de agosto...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011



Permita-me esquecer teus doces olhos... 
pois é próprio do olvido o sorriso que me cabe
e os passos que arrastam toda a arquitetura da minha existência.
Deixe- me seguir,
quedando-me à porta de tantas lembranças.
Não reprimas meu riso bobo... 
nem mesmo caçoe das besteiras que falo.
Permita-me ser leve e às vezes ser vento.
Não me pinte com as cores da tua tolerância.
Preciso ir, como quem não demora.
Vou sepultar a maldade desse querer desregrado.
E imperativamente, libertarei os pés, para que guiem todo o 
exército de membros que compõem essa pobre vida...
Peço apenas que não me impeças
Tudo que peço é que me deixes ser leve,
depois dessa chuva,
que partas e não voltes nunca.
que não me escreva uma carta sequer.
Que a nossa história vire uma música.
de preferência sem letra,
de complexa partitura.
... Por fim...
suplico que me abraces, que não me deixes. que desesperadamente me beijes a cada segundo como quem morre de sede...
não me julgues louca, tola, azuretada...
essa saudade que sinto não tem siso, nem solução.