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...Quero fome.
Tenho fascinação pela vontade...  pela voracidade...  pela devoracidade alucinante. Tenho estômagos entediados e magoados... cheios de gastrites e rachaduras...  tenho muitas obesidades e sofro de indigestões crônicas... ...mas a magreza me assusta! ...e eu quero ter em mim os olhos grandes dos esfomeados que deliram pelos gostos imaginados
...os olhos desses pobres que adoecem com seus desejos infinitos deliciosamente impalpáveis. 


(Aurora - Camille Claudel. 1895-1897)
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Engoli tantos choros, gritos, versos e querências que perdi a fome e tomei a forma dos preços, botões e endereços que me exigiam.
Mantive a distância necessária dos sentimentos devoráveis pelas cascas e caixas que me mantêm... Compro diariamente manuais de felicidade com cálculos precisos.
Meus arquivos registram os erros que não devem ser esquecidos, todos os nãos e correspondências ignoradas, para não haver revivências.
Conto os passos e sigo as setas para evitar os ridículos.
Falo do que quero em frases curtas e só componho canções de saudades que nem sei se são minhas.
Vivendo singular, terceirizo sentimentos agudos e fortes do tipo que tomam muito tempo.
Saboreio o medo como um familiar aperitivo e vou esquecendo as chaves, os trapos e os infinitivos enquanto cresce o cansaço.




(Auto-retrato do artista sem barba - Vincent Van Gogh)
O peito cheio denuncia as asas que ainda estão no estômago
e que neste exato momento saem pela boca e fecham os pulsos...
Um voo indigesto, urgente, necessário, daqueles não podem ser cuspidos fora simplesmente, se anuncia.
O prenúncio da quinta estação.
A coragem cantada como uma canção é a catalisadora desse descomer de sonhos.
As forças epiméticas já não podem muito.
Nem mesmo pandoricamente saberia dizer a sua direção.
Será que Matilde entende?
Será que darão notícias dos horários de pouso?
Será que segurarão o choro ou o riso?
Todas as aves esperam a liberdade se espreguiçar para mudar a história. As pequenas araras, guarupas e canários cifram a melodia...
E como um avião, as asas enormes da vontade carregando sua pesada alma saudosista ganham velocidade em um céu de possibilidades infinitas.



Permita-me esquecer teus doces olhos...
pois é próprio do olvido o sorriso que me cabe e os passos que arrastam toda a arquitetura da minha existência. Deixe- me seguir, quedando-me à porta de tantas lembranças. Não reprimas meu riso bobo...  nem mesmo caçoe das besteiras que falo. Permita-me ser leve e às vezes ser vento. Não me pinte com as cores da tua tolerância. Preciso ir, como quem não demora. Vou sepultar a maldade desse querer desregrado. E imperativamente, libertarei os pés, para que guiem todo o  exército de membros que compõem essa pobre vida... Peço apenas que não me impeças Tudo que peço é que me deixes ser leve, depois dessa chuva, que partas e não voltes nunca. que não me escreva uma carta sequer. Que a nossa história vire uma música. de preferência sem letra, de complexa partitura. ... Por fim... suplico que me abraces, que não me deixes. que desesperadamente me beijes a cada segundo como quem morre de sede... não me julgues louca, tola, azuretada... essa saudade que sinto não tem siso, nem …

Seresteira

Di Cavalcanti. Mulher.
Ela sentiu que seria o fim,
resolveu reunir todas as roupas...
revelar alguns segredos
e declarar alguns amores ingratos.
lamentou as brigas que não comprou
e as bandeiras que não defendeu.
Gritou aos quatro ventos seus delírios.
Foi no pagode, subiu e desceu... virou feitiço.
bebeu. se deu. comeu e cuspiu. levou e não pagou.
O tempo foi cruel,
e como um saci, fez que ia passar e não passou.
Humilhada resolveu fazer uma seresta,
vestiu uma saia emprestada... virou sambista...

de tanto que ficou falada...
pegou os trapos, a viola, a percata
e foi morar em outra aldeia.

O velho do mar

Era noite,
o calor há muito o angustiava.
Enquanto tomava um café quase frio, entorpecia-se pensando na vida.
Era um velho de pouco mais de vinte anos, como eu.
Olhava ao longe a miragem do que parecia o futuro: um castelo de Sherazade envolto nos vultos da possível solidão.
Durante algum tempo, depois de se perder de seus templos, seus versos, suas semióticas e vícios... passara a elocubrar sobre seus reinos e inventar suas próprias cores.
Lançou-se ao mar, sem muitas escolhas, como qualquer um de nós, náufragos de nascença.
Por detrás de sua barba e seu tempo, não é só mais um bobo da corte, como eu, é o arauto que trouxe as boas novas para essa aldeia... pois tem histórias, tem nas mãos as fantasias que trouxe das profundezas, onde os monstros mitológicos habitam, onde ouviu das sereias o terrível canto do amor... os segredos dos reis e dos peixes... seus feitiços, batalhas, falhas, inventos...a odisséia de um herói que já teve muitas tróias para derrotar...
Estou desfeitas em infinitos... e vejo lá longe dias fartos e chuvosos que se transformam em rios.
Não estou negando minhas paredes, as carrego, as protejo... levarei comigo os escombros e os famintos cupins que abrigo... os tijolos que eu deixar para trás, deixarei por conta própria, livres para o esquecimento... sigo na direção do que não pode ser medido... no êxtase da sensação de estar livre eu quedo e não abro os olhos por sentir qualquer medo.