quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Permita-me esquecer teus doces olhos...
pois é próprio do olvido o sorriso que me cabe
e os passos que arrastam toda a arquitetura da minha existência.
Deixe- me seguir,
quedando-me à porta de tantas lembranças.
Tudo que peço é que me deixes ser leve,
depois dessa chuva,
que parta e não voltes nunca.
que não me escreva uma carta sequer.
Que a nossa história vire uma música.
de preferência sem letra,
de complexa partitura.
... Por fim...
suplico que me abraces, que não me deixes. que desesperadamente me beijes a cada segundo como quem morre de sede...
não me julgues louca, tola, azuretada...
essa saudade que sinto não tem siso, nem solução.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Seresteira

Di Cavalcanti. Mulher.
Ela sentiu que seria o fim,
resolveu reunir todas as roupas...
revelar alguns segredos
e declarar alguns amores ingratos.
lamentou as brigas que não comprou
e as bandeiras que não defendeu.
Gritou aos quatro ventos seus delírios.
Foi no pagode, subiu e desceu... virou feitiço.
bebeu. se deu. comeu e cuspiu. levou e não pagou.
O tempo foi cruel,
e como um saci, fez que ia passar e não passou.
Humilhada resolveu fazer uma seresta,
vestiu uma saia emprestada... virou sambista...

de tanto que ficou falada...

pegou os trapos, a viola, a percata
e foi morar em outra aldeia.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O velho do mar

Era noite,
o calor há muito o angustiava.
Enquanto tomava um café quase frio, entorpecia-se pensando na vida.
Era um velho de pouco mais de vinte anos, como eu.
Olhava ao longe a miragem do que parecia o futuro: um castelo de Sherazade envolto nos vultos da possível solidão.
Durante algum tempo, depois de se perder de seus templos, seus versos, suas semióticas e vícios... passara a elocubrar sobre seus reinos e inventar suas próprias cores.
Lançou-se ao mar, sem muitas escolhas, como qualquer um de nós, náufragos de nascença.
Por detrás de sua barba e seu tempo, não é só mais um bobo da corte, como eu, é o arauto que trouxe as boas novas para essa aldeia... pois tem histórias, tem nas mãos as fantasias que trouxe das profundezas, onde os monstros mitológicos habitam, onde ouviu das sereias o terrível canto do amor... os segredos dos reis e dos peixes... seus feitiços, batalhas, falhas, inventos...a odisséia de um herói que já teve muitas tróias para derrotar...