domingo, 28 de junho de 2009

Tanta arrogância não combina com meu moletom, nem com o tempo de uso dos meus sapatos.

(Sabia disso e mesmo assim insistia em pisar o mesmo asfalto e devorar a distante presença
- ele se perdia entre as conotações inefáveis daquela quimera - um condenado a saudade)

Amei a embreaguez e os meus males, de sobriedade bastava saber o teu não querer.

(sozinho amparado pela calçada, gritava baixinho, sem erguer mãos para esmolas)

o que tenho são córneas com tua imagem, pálpebras com teus gestos, língua com teu gosto, mãos com teu lodo...e um coração que te ama radioativamente atrofiando meus sentidos...
tudo pisado e ignorado pelo teu salto alto e pela tua soberba de lábios finos e vermelhos.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

ainda não inventaram a máquina de desfazer saudade,
de desfazer vontade
de carregar nas costas a casa
a voz, a conversa, as risadas
dias de cheiro de comida braba
incendiados de fogueiras grandes

quem foi que fez tantos fogos e tantas cores ?
quem foi que escreveu a tristeza de todos os amores ?

tantas são as ruas do mundo
que o caminho é tão longo, tão roto
segue então, a dança como se não houvesse chão
e abraça a saudade, firmando a mão no eco da vivaz lembrança
que ainda hão de inventar semente
pra fazer brotar a gente que esburaca o coração

em dias que cheiram a falta.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Só mais um Bolero...

faca amolada no salão imenso
cada nota é um tapa na imagem distante que inflama o peito
no lamentoso rodar
o salão tão vasto
a letargia do tempo harmoniza a dor e a falta
volta
e envolve em teus braços esse abraço fraco e frio
tira das mãos tristes esse copo quase vazio
e cobre esse corpo com teu vestido esmaecido
envolvido em ti desfaz o vagaroso
e os pés seguem de perto o cheiro da nuca quente
os teus ombros mais baixos
teus lábios mal pintados
encaixo em teu decote esse querer sincero

...e na cantante saudade vive a falsidade dessa minha ilusão.
No batente da porta da madureza
as lembranças inquietas e os olhos úmidos
- frio terrível tem as noites de junho
e depois dessa porta há tantos outros olhos
outros abraços
não há choros ou rimas
nem cartas com desenhos
ou brincadeiras com poderes

atravessá-la nua é o único jeito
fora dela há apenas esse batente
e um cheiro forte de lembranças e ausências
nenhum transeunte para as bobagens da infância
- as palpébras apagadas ainda reconstroem as velhas ruas
o tempo sopra forte
e crescem pêlos
impulso
e travessia
o encontro com a perda da nudez
[atrevessa a porta esses pés ainda macios de unhas curtas]
- troca de fantasmas

Na madureza os homens usam gravatas
que enforcam seus desvarios
as mulheres pintam os lábios de mentiras
sem brincadeiras
nem tempo
nem castelos...bruxas..encantos
só sapos
aqui ao que parece
tudo é desespero