quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Engoli tantos choros, gritos, versos e querências que perdi a fome e tomei a forma dos preços, botões e endereços que me exigiam.
Mantive a distância necessária dos sentimentos devoráveis pelas cascas e caixas que me mantêm... Compro diariamente manuais de felicidade com cálculos precisos.
Meus arquivos registram os erros que não devem ser esquecidos, todos os nãos e correspondências ignoradas, para não haver revivências.
Conto os passos e sigo as setas para evitar os ridículos.
Falo do que quero em frases curtas e só componho canções de saudades que nem sei se são minhas.
Vivendo singular, terceirizo sentimentos agudos e fortes do tipo que tomam muito tempo.
Saboreio o medo como um familiar aperitivo e vou esquecendo as chaves, os trapos e os infinitivos enquanto cresce o cansaço.


Resultado de imagem para grandes obras louvre

(Auto-retrato do artista sem barba - Vincent Van Gogh)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

                                                                               La Danaide. A. Rodin



Cedendo à preguiça das pálpebras
não tenho nada a cobrar do que me é alheio...
Tenho os bolsos cheios de tolerâncias ácidas.
Essa voz calma e esses olhos distraídos
denunciam a matéria do meu cansaço.
Sou réu confesso de ilusomícidios tardios - crime passional
e gentil em defesa dos dias de agosto...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011



Permita-me esquecer teus doces olhos... 
pois é próprio do olvido o sorriso que me cabe
e os passos que arrastam toda a arquitetura da minha existência.
Deixe- me seguir,
quedando-me à porta de tantas lembranças.
Não reprimas meu riso bobo... 
nem mesmo caçoe das besteiras que falo.
Permita-me ser leve e às vezes ser vento.
Não me pinte com as cores da tua tolerância.
Preciso ir, como quem não demora.
Vou sepultar a maldade desse querer desregrado.
E imperativamente, libertarei os pés, para que guiem todo o 
exército de membros que compõem essa pobre vida...
Peço apenas que não me impeças
Tudo que peço é que me deixes ser leve,
depois dessa chuva,
que partas e não voltes nunca.
que não me escreva uma carta sequer.
Que a nossa história vire uma música.
de preferência sem letra,
de complexa partitura.
... Por fim...
suplico que me abraces, que não me deixes. que desesperadamente me beijes a cada segundo como quem morre de sede...
não me julgues louca, tola, azuretada...
essa saudade que sinto não tem siso, nem solução.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Seresteira

Di Cavalcanti. Mulher.
Ela sentiu que seria o fim,
resolveu reunir todas as roupas...
revelar alguns segredos
e declarar alguns amores ingratos.
lamentou as brigas que não comprou
e as bandeiras que não defendeu.
Gritou aos quatro ventos seus delírios.
Foi no pagode, subiu e desceu... virou feitiço.
bebeu. se deu. comeu e cuspiu. levou e não pagou.
O tempo foi cruel,
e como um saci, fez que ia passar e não passou.
Humilhada resolveu fazer uma seresta,
vestiu uma saia emprestada... virou sambista...

de tanto que ficou falada...

pegou os trapos, a viola, a percata
e foi morar em outra aldeia.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O velho do mar

Era noite,
o calor há muito o angustiava.
Enquanto tomava um café quase frio, entorpecia-se pensando na vida.
Era um velho de pouco mais de vinte anos, como eu.
Olhava ao longe a miragem do que parecia o futuro: um castelo de Sherazade envolto nos vultos da possível solidão.
Durante algum tempo, depois de se perder de seus templos, seus versos, suas semióticas e vícios... passara a elocubrar sobre seus reinos e inventar suas próprias cores.
Lançou-se ao mar, sem muitas escolhas, como qualquer um de nós, náufragos de nascença.
Por detrás de sua barba e seu tempo, não é só mais um bobo da corte, como eu, é o arauto que trouxe as boas novas para essa aldeia... pois tem histórias, tem nas mãos as fantasias que trouxe das profundezas, onde os monstros mitológicos habitam, onde ouviu das sereias o terrível canto do amor... os segredos dos reis e dos peixes... seus feitiços, batalhas, falhas, inventos...a odisséia de um herói que já teve muitas tróias para derrotar...

sábado, 31 de julho de 2010

Goya "sleep of reason"



a semelhança de uma tempestade o tédio se instala
feito da matéria ababosada da nostalgia
tédio quase letal
da espécie do putrefostedius
suas vítimas experimentam o avesso da vontade
e devoram as entranhas do auto-estranhamento que as alimenta a alma
tédio feito da calma covarde
e da lama rala da vaidade
seu vil diagnóstico espera a corda no pescoço
o fosso da vã comiseração miserável.


Não há remédio à vista... contra esse samba roto!