Era noite,
o calor há muito o angustiava.
Enquanto tomava um café quase frio, entorpecia-se pensando na vida.
Era um velho de pouco mais de vinte anos, como eu.
Olhava ao longe a miragem do que parecia o futuro: um castelo de Sherazade envolto nos vultos da possível solidão.
Durante algum tempo, depois de se perder de seus templos, seus versos, suas semióticas e vícios... passara a elocubrar sobre seus reinos e inventar suas próprias cores.
Lançou-se ao mar, sem muitas escolhas, como qualquer um de nós, náufragos de nascença.
Por detrás de sua barba e seu tempo, não é só mais um bobo da corte, como eu, é o arauto que trouxe as boas novas para essa aldeia... pois tem histórias, tem nas mãos as fantasias que trouxe das profundezas, onde os monstros mitológicos habitam, onde ouviu das sereias o terrível canto do amor... os segredos dos reis e dos peixes... seus feitiços, batalhas, falhas, inventos...a odisséia de um herói que já teve muitas tróias para derrotar...
quarta-feira, 20 de abril de 2011
sábado, 31 de julho de 2010
Goya "sleep of reason"
a semelhança de uma tempestade o tédio se instala
feito da matéria ababosada da nostalgia
tédio quase letal
da espécie do putrefostedius
suas vítimas experimentam o avesso da vontade
e devoram as entranhas do auto-estranhamento que as alimenta a alma
tédio feito da calma covarde
e da lama rala da vaidade
seu vil diagnóstico espera a corda no pescoço
o fosso da vã comiseração miserável.
Não há remédio à vista... contra esse samba roto!
quinta-feira, 1 de julho de 2010
antropofagiadetodosnós
Devoro os meus pertencimentos como um carnívoro infame
mato a minha fome com carne morta e alheia
Devoro toda a vida transeunte
e cuspo célula,
como um cachorro abandonado não rejeito restos,
não exijo talheres de prata ou porcelana nova,
eu não engulo os trapos e
sempre que posso como na panela sem medo da chuva.
Em noites de lua
me esfrego no teu perfume morto,
teu prazer gerando o meu lodo...
e os meus poros vorazes farejam
teus rastros pelo ar...
Em mim apenas o instante é vivo,
e pulsa em meu sangue quente,
o resto é refulgo frenético e inane.
mato a minha fome com carne morta e alheia
Devoro toda a vida transeunte
e cuspo célula,
como um cachorro abandonado não rejeito restos,
não exijo talheres de prata ou porcelana nova,
eu não engulo os trapos e
sempre que posso como na panela sem medo da chuva.
Em noites de lua
me esfrego no teu perfume morto,
teu prazer gerando o meu lodo...
e os meus poros vorazes farejam
teus rastros pelo ar...
Em mim apenas o instante é vivo,
e pulsa em meu sangue quente,
o resto é refulgo frenético e inane.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Lusofagia
A minha língua é o berço dos meus olhos,
o pé dos meus sonhos...
os contornos dos tantos corpos,
o pastor do meu rebanho.
Na minha língua dei vida a "inania" terrena...
pisei na arena e matei dragões.
Exorcizei tristezas,
devorei nomes.
Na minha língua cotornei teu suor,
teus membros,
redesenhei teus defeitos.
Inventei mil formas,
meu ontem, meus pedaços, meu inteiro.
cuspi, comi e escarrei... em seus dialetos.
dela tirei as asas que me levam,
e esse meu ego de nariz grande.
Tenho a língua imunda dessa língua que lava os meus custumes,
minha dor, os meus quereres,minha liberdade...
minha saudade foi escrita em português.
o pé dos meus sonhos...
os contornos dos tantos corpos,
o pastor do meu rebanho.
Na minha língua dei vida a "inania" terrena...
pisei na arena e matei dragões.
Exorcizei tristezas,
devorei nomes.
Na minha língua cotornei teu suor,
teus membros,
redesenhei teus defeitos.
Inventei mil formas,
meu ontem, meus pedaços, meu inteiro.
cuspi, comi e escarrei... em seus dialetos.
dela tirei as asas que me levam,
e esse meu ego de nariz grande.
Tenho a língua imunda dessa língua que lava os meus custumes,
minha dor, os meus quereres,minha liberdade...
minha saudade foi escrita em português.
sábado, 17 de outubro de 2009
Torpor!
o efeito cardamomico de todos os acordes,
o corpo queda entre a pscodelia e a razão
e a loucura materializa-se
o que é feito mistério encendeia
a natureza do fogo queima todos os elementos postos
O frenesi de todas as notas...
dopada entre todos os rumores
apenas mais um alucinante
estranho ao ser e ao devido
não há nada
nada existe...
a não ser o meu rádio delirante
a não ser os gemidos incessantes
do desejo de ser etério!
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Julho é um mês sem sol
Atravesso sem olhar as luzes frenéticas que devoram o asfalto
Não enxergo as poças de patologias
Os sete anos de azar de todos os espelhos quebrados
pesam sobre o sétimo mês
Olho adiante sem ver o palmo à espreita
Não vejo o tapa, o rastro, o afago
Julho é um mês frio e de tintas frescas
São tantas as ciladas já armadas,
os pés vacilam, o perigo engole
o medo finge que dorme sob os pingos da saliva que escapolem
dos gritos da fome da necessidade
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